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​"A queda... de uma cachoeira"

   Quem já viveu um relacionamento abusivo sabe que não é o quando que nos faz mudar e sim o como. Este como costuma aparecer naquela ocasião em que você finalmente tem mais medo de morrer do que coragem para viver um novo dia entre lágrimas, ameaças e hematomas.

Meu primeiro passo para a lavadura mental foi a fuga. Sem poder monetário e sem poder voltar atrás, eu Helena, dali para frente, podia apenas respirar. Um respirar às vezes com mais tranquilidade e por vezes de modo mais exacerbado com todos os receios de que ele, o meu agressor, retornasse.

   Fui pingando de estrada a estrada, trovejando de ônibus rodoviário à fretado até que por falta de mais recursos, ou por achar que estava minimamente distante e segura, acabei atracando em uma encantadora cidade litorânea.

   Ainda no primeiro dia em que cheguei, me recordo de ter colocado a mochila em uma pedra e de ter sentado na areia fofa observando no horizonte as infinitas possibilidades que iriam se abrir a partir dali, como construir um novo e desconhecido caminho. Eram pensamentos curtos, sabotados pelas mais horripilantes lembranças do meu acometedor, mas tudo metamorfoseou quando conheci o incrível Theo.

   Theo, com sua pele bronzeada pelo sol e os cabelos claros pelos raios solares que deviam encontrá-lo fielmente todos os dias, tinha olhos intensos que se confundiam com as paineiras que balançavam no pulsar do vento.

  Não demorou dele me notar e eu permanecia perdida no seu sorriso zombeteiro que marcava covinhas em suas bochechas, completamente distraída como quem apreciava uma obra de Monet, não vi uma onda rasa e curta chegar e logo me molhei por completa:

- Guria, tu estás bem? (mas é claro que além de uma beleza estupenda, ele viria com um sotaque sulista travesso e avassalador).

   Não demorou também para mostrar polidez ao me ajudar a me levantar e reerguer com mais que um braço, com um alto astral que foi ganhando a minha confiança nos dias sucessivos e ininterruptos.

   Quando me inteirei do que estava acontecendo, já não era mais inteira, pois parte de mim era todinha dele, sem sequer conhecê-lo. Ele era um protótipo perfeito para um projeto verão, para uma segunda chance de me apaixonar e quem sabe desta vez pelo par perfeito.

   Entre ideias delirantes com caminhadas e o suor dele que escorria pelo seu tórax avantajado, em uma tarde célebre com conversa mole, acabei aceitando o trabalho na tenda de aluguel de equipamentos de mergulho, em que ele era o dono junto com seu sócio e melhor amigo Tadeu.

   Ali, o ensejo perfeito: renda e amigos, pois Tadeu era casado e havia construído uma família com a belíssima Hellen.

   Hellen era discreta, evitava falar sobre o meu passado, talvez pela marca de sol que ainda tinha no meu dedo anelar esquerdo, talvez pela minha cara de assustada quando acidentalmente caia algum equipamento de mergulho quando os clientes iam alugar, ou talvez por ter um coração nobre e só querer com simplicidade conhecer “o meu eu Helena” no tempo verbal presente, sem se importar com pretérito algum.

   Por meses vivi em uma área de camping em minha barraca, até ser promovida por Theo a ser gerente de seu negócio para que ele e Tadeu tivessem mais tempo hábil para surf e família respectivamente. Foi a tal da promoção que fez com que eu alugasse uma casinha simples bem próxima a de Theo.

   No verão, eu o via pela tenda dos seus equipamentos, trabalhava o dia todo, a mente continha zero espaço para pensamentos obscuros ou sabotagem pessoal. Era impressionante, não sei relatar o que mais harmonizava, se eram nossos olhos, nossas falas ou nossas almas. Mas foi esse último item citado que mais nos aproximou e fez com que em uma tarde ensolarada com chuva de verão poética, encontrássemos mais do que um pote de mel no fim do túnel, encontrássemos um abrigo em um pedaço do paraíso, chamado: troca de fluídos corporais iniciais que só precisavam de bocas e uma imaginação plausível.

   Logo estávamos assumidamente enfeitiçados e possuídos pela magia do amor fizemos o brilhante acordo de não abordarmos o passado, eu por motivos evidentes, ele por Melina, sua ex-namorada lunática, que jamais aceitara o término que haviam tido.

   Articulam os mais renomados psicólogos, que o amor é feito de fases, que seja dito de passagem, só tem essas fases se deixar de ser uma paixão e partindo do triste princípio que as paixões são passageiras e os amores duradouros. Claro, em uma visão hipócrita da sociedade que nos ensina desde cedo a ser amiga do cônjuge mas nos impossibilita de querer ter diferentes desejos pela mesma pessoa a vida toda. Pois bem, vamos retomar a dramaturgia, ou história...

   Melina fazia questão de se fazer presente e passou a ser uma ameaça em meu namoro com Theo, quando surgia para alugar equipamentos com cara de desconfiada ou como se soubesse meu mortal segredo. Ela chegava a deixar bilhetinhos importunos nas máscaras de snorkel, com clichês de filme como: “Helena, sabemos o que você fez no verão passado”.

   As piadas anos 2000 de Melina começaram a me deixar paranoica e eu passei a ter a impressão que quando estávamos dormindo, Theo saia de madrugada para investigar algo, o que era totalmente incoerente para um surfista que como um pescador se aprumaria cedo para praticar seu sustento.

   Theo e eu estávamos prestes a enfrentar altos e baixos. No verão, eram sextas-feiras jantando na casa de Tadeu e Hellen com vinho, risadas e retornando para nossa casa com música relaxante e domingo agarradinhos no sofá discutindo leituras banais ou observando ele pintar telas de modo abstrato, como fazia por hobby.

   Eis que o inverno deu o ar da sua graça e uma crise se instaurou em nosso vínculo afetivo. Um dia, cheguei a jurar que o vi na rua conversando com uns policiais, e que mandava mensagens por outro celular. Teria Theo um caso com Melina? Estaria ele investigando meu passado? Teria ele algo de fato a me esconder? Será que eu não o conhecia e corria os mesmos riscos anteriores?

É uma porcaria ser perseguida pelo seu passado, dá a impressão de que o presente pode estar o mais pleno possível, mas você sempre será a vítima de um episódio “X” que lhe aconteceu quase que um milhão de anos atrás.

   Certa noite, bem gelada e com geadas por todo o sul do nosso país, com um ponto de orvalho altíssimo deixando as pistas escorregadias, saímos sozinhos para jantar. Theo parecia arrasado e na minha mente era algo além do nulo movimento em seu negócio ocasionado pelo frio, algo o deixava desconcertado, pois para mim ainda me olhava apaixonado. Cheguei a pensar que antes de adentrarmos a pizzaria que estava em nosso caminho, iríamos terminar, pois ele ficou calado, o que me dava ainda mais agonia pois eu queria muito contar algo a ele naquela noite. Algo que me assustava um pouco também.

- Você podia pelo menos facilitar a minha vida e me contar abertamente sobre o seu passado – ele me cobrava em um tom estranho, como se tivesse incorporado um personagem de peça teatral.

   Pus-me a chorar, vendo o fim de uma aventura linda chegando ao fim e já me conformando que talvez o meu destino era ser destinada às psicopatias e agressões de um ex-alguém ou outro alguém pelo mundo ou talvez permanecer uma loba solitária uivando em noites de lua cheia ou sem lua vagando por aí. Não tão sozinha naquela altura do campeonato.

   Tudo aconteceu muito rápido, eu mal tive tempo de responder, Theo travou uma discussão, começou a se alterar, olhar paranoicamente para o retrovisor e logo gritou:

- Não é possível, é ele, não é? Não faça isso... 

   Escuridão, barulho de água caindo e de mais nada pude recordar.

   Uma crise de ausência em minha memória que me causou mais de um ano excluída da sociedade, sem direito à visita, principalmente a visita dele, que poderia ser um alguém tão abusivo e tão tóxico como o anterior.

   Tive que ver de uma pequena janelinha o tempo passar e Hellen se posicionou como uma escudeira e amiga fiel, me buscou no dia de minha suposta alta e com carinho me avisou que para comemorar meu recomeço, iríamos para um passeio com alguns colegas queridos.

   Ela foi logo me dando no carro, uma bolsa com uma troca de roupas: shorts, camiseta e um maiô. Ali entendi que iríamos talvez desfrutar de uma tarde de verão na praia.

   O reencontro na verdade não aconteceu na praia, era na cachoeira mais bela da região, porém para o meu desespero, a primeira pessoa que avistei foi Melina e a segunda, Theo. Este último me deu uma sensação de impotência com uma angústia encubada em todos os órgãos do meu corpo.

   Hellen havia levado seu filho Tom para brincar e entre um mergulho e outro, acabei molhando bastante a camiseta por cima do maiô e quando começou a bater uma brisa gelada com sol descendo, tratei de me trocar discretamente em um canto isolado e aceitando um biquini extra que    Hellen tinha em sua bolsa, fiz minha troca de look.

   Quando estava já com a parte de cima do biquini, avistei a excêntrica e maníaca Melina, com um celular mostrando algo, onde pôs-se a berrar:

- Vocês sabiam que a amiga de vocês é além de tudo é uma grande mentirosa? Que seu nome verdadeiro nem é esse e sim Catarina? E essas cicatrizes de suicida e assassina que ela tem, olhem só, é porque naquela noite ela tentou matar o Theo também, sabiam? – ela foi compartilhando algumas imagens com todos, como meu documento de identidade.

   Em choque permaneci, essa louca mal sabia tudo que ali estava colocando em risco. Hellen se ligou que algo estava errado e tratou de me indagar:

- Mas Helena, por que essa farsa de ter ficado no centro de habilitação?

- Desculpe-me Hellen, é mais complicado do que vocês imaginam e só agora posso revelar que estive em um programa de proteção à testemunha e não podia receber visitas.

- Como assim: “Programa de proteção à testemunha”? – Tadeu insistia.

- Infelizmente antes de conhecer a todos vocês, meus amigos, eu tive um relacionamento abusivo, não foram só fraturas pelo meu corpo, como eternas lesões em minha mente.

   Hellen queria ser a boa amiga, estava assustada, mas tentando entender, me questionou:

- Mas as pessoas viram vocês dois - (se referindo ao Theo) - discutindo no dia que eventualmente tentou se suicidar, bem aqui no alto dessa colina, ali no topo da cachoeira.

- Sim Hellen, nós estávamos discutindo, pois neste dia ele me buscou para questionar o porquê de eu estar tão estranha e contando evidentes mentiras e fui obrigada a falar de um passado que tanto me doía, algo que até então não estava pronta para falar sobre, com absolutamente ninguém. Eu havia acabado de contar algo mais chocante para ele e evitamos nos ver esse período todo que estava no programa, para cuidar de algo maior...

   Tadeu logo se zangou e questionou:

- Nós todos estávamos ao seu lado, o que poderia ser maior do que cuidar do seu relacionamento com Theo e de suas amizades conosco?

 - Então vocês acharam que este tempo todo eu estava fora da minha normalidade, internada por uma frustrada tentativa de suicídio? Mas a realidade é que eu e Theo, estávamos muito bem em nosso relacionamento, extremamente apaixonados, quando fomos perseguidos por um carro em alta velocidade que jogou nosso veículo para dentro do rio e como Theo bateu fortemente a cabeça contra o volante ficando inconsciente e para salvá-lo tive que quebrar alguns vidros que ocasionaram os cortes que vocês estão vendo.

   Todos estavam chocados, crianças chorando com medo de mim, mulheres fragilizadas e solícitas com minha situação ao ver os cortes pelo meu corpo, homens abraçando o Theo e querendo saber mais do acidente e tudo isso sem que ninguém soubesse de fato os maiores segredos desta farsa toda.

   Segredos melancólicos e intrigantes...

  Intrigante a ponto de Theo ser o investigador infiltrado das diversas denúncias de violência, abusos e desvio de dinheiro contra meu ex-marido.

   Um Theo que com seu lado astuto fez com que eu me apaixonasse por ele;

Um mesmo Theo que com seu egoísmo zelou por sua carreira ao invés do que quer que seja que estivéssemos construindo;

   Aquele Theo que eu jamais saberia se tinha de fato se apaixonado por mim.

Este Theo a quem tanto me refiro, que com sua imprudência me fez ter vários cortes, mas com sua fala mole e olhos mareados tinha me causado o melhor corte que a vida poderia me trazer: nossa filha Catarina, e sim, era esse corte que todos estavam paralisados olhando ali na cachoeira naquele dia, o corte inflamado da minha cesárea...O vazio e o nada instigam e somente eu enxergava além do que para eles, era o “queridinho Theo”, o eterno moleque surfista largado no final da tarde com cabelos emaranhados.

   Theo, não sei qual personagem interpreta naquela ocasião, permaneceu mudo, consentindo calado, afinal, sobre nada falaria que pudesse atrapalhar o florescer do seu narcisismo, mesmo narcisismo que me queimava na combustão da noite e me corroía como o sal grosso das ondas nos grãos de areia da praia...

 

Quem me dera, ser Helena, assim como quem me dera que todas as quedas fossem... de uma cachoeira...

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