top of page
Captura de Tela 2023-07-10 às 16.02.15.png

​"Um traje a vigor"

  As mulheres pensam que os homens não têm crise de meia idade, mas a grande verdade é que todo ser humano passa por aquela fase em que acorda em um domingo vazio e sem graça e se pergunta o que está fazendo com a vida.

  Eu estava meio cansado de ganhar pouco dinheiro como modelo, ou de fazer papéis secundários em peças de teatro, e foi em um inverno chuvoso com as praias despovoadas de minha querida cidade Salvador, em que resolvi, sob influência de meus amigos, me inscrever para trabalhar em um hotel, no próximo verão. Era uma tentativa de ajudar com mais grana a minha mãe a manter a casa e os meus irmãos mais novos a serem alguém na vida.

  Quando menos esperava, fui convocado para o treinamento intenso como membro da equipe de entretenimento, ciente de que os turnos seriam desgastantes, com cargas puxadas, pouco sono e muito sorriso no rosto dás 6h às 6h independente da vida da porta pra fora.  Nada, em absoluto, poderia dar errado e as regras pareciam simples e com base na privação do sono e em priorizar pelo entretenimento de todos.

  Seriam horas jogando vôlei na piscina com a terceira idade, frescobol com os adolescentes na areia, competição de viradas de canecos de cerveja com os homens maduros e alguns passinhos coreografados com a mulherada doida para rebolar a raba, com o consentimento dos parceiros embriagados.

  Havia uma observação discreta em itálico e após um asterisco que dizia: “não é permitido o envolvimento sexual de funcionários com hóspedes sob nenhuma circunstância”. Por duas razões básicas eu ignorei essas letrinhas miúdas: primeiro por estar rodeado por mulheres gatas no meu próprio treinamento e segundo por ter a noção que seriam tantas pessoas esnobes que o melhor de fato era não se envolver.

  Temporada começou moleza, hotel sempre cheio, noites com o pessoal da equipe sempre resenhando nos luais ocultos que montávamos. Uma ficada aqui, outra noite vazia ali e geralmente uma folga na semana para trocar de praia e ir comer mini acarajé ou espetinho de goiabada com queijo coalho com a minha família, mergulhando com a criançada e vendo o sol se pôr pegando umas minis ondas.

  Eu vivia dois universos paralelos, mas como o grande sonho era ser um ator renomado dos grandes teatros, valia a pena praticar ambos os papéis: funcionário empenhado e homem provedor de sua família.  Eram atos intercalados de fantasia e utopia.

  Quase no fim de janeiro, organizamos uma semana especial com tema “tropical” no hotel que servia como ponte para promover uma marca nova de energético que seria lançada nos camarotes do famoso carnaval soteropolitano.

  A nata da sociedade marcou presença e fomos avisados para redobrarmos os cuidados com toda aquela gente importante e que nossas folgas seriam hipoteticamente reduzidas. Ninguém da equipe ficou muito bem com aquilo, alguns chegaram a desistir, enquanto outros se entupiam de doses de cafeína, regadas com cachaça e mais qualquer complemento ilícito discreto que poderia existir. Eu seguia meu plano de crescer na vida, queria manter um shape legal, comia pouca tranqueira e evitava me embebedar. Até as festinhas nossas da equipe foram reduzindo, por dores musculares e as fodas banais trocadas por três, quatro horas de sono para se recompor.

  A grande noite chegou, organizamos um bailão, todos deveriam vestir branco para elevar o glamour e fomos todos instruídos a fazer passinhos para a galera acompanhar e se entrosar melhor.

  A chegada dela foi discreta e fez com que a festa se tornasse massa, apesar de acompanhada pelo seu irmão, o grande CEO dos diachos dos energéticos, era ela quem se destacava.

  Enquanto o mulherio do salão estava montado em saltos gigantes, com vestidos à vácuo e suas mini tangas e aquelas maquiagens em que dava para varrer os cílios com uma vassoura, ela chegou com um vestido rodado, texturizado em florzinha miúda, uma rasteira que não se importava com os grãos da areia fofo que poderiam abraçar os seus pés. Um rosto limpo e levemente rosado.

  O cheiro dela era frutado, parecia um sorvete delicioso de baunilha que a gente prova na infância e nunca mais encontra, logo a vi se sentando quietinha de lado, após cumprimentar pessoas imponentes.  Notei quando seu irmão já meio ébrio, foi se entrelaçando entre pernas e braços das donas e aproveitei da oportunidade para chamá-la para dançar.

  Um forrozinho pé de orelha por força do destino foi lançado na pista. Muito delicada, ela mantinha uma distância segura de mim. Música entrava, música saía e lá estávamos nós brilhando mais que a lua malandrinha que pelo cantinho da telha observada nosso cenário de amor.

  Ela era a tradução perfeita de afeto em forma de mulher e notando meu cansaço tratou de buscar um drink leve para ela e uma água para mim. Foi neste momento em que conversamos pela primeira vez usando nossas vozes, porque os nossos olhares como um farol brilhavam a noite toda e nossos corpos se sintonizavam em várias sequências de dois para cá e dois pra lá.

- Oi, eu sou a Julie.

- Prazer Julie, eu sou Gael.

  Logo fui interrompido por minha própria amnésia e lancei:

- Hoje é aniversário de uma amiga da equipe e nós vamos festejar com folia no fundo do hotel, tipo um luau, se você quiser ir.

  Ela muito tímida, olhava mais para o chão do que pra mim, e percebendo a ausência do seu irmão que a intimidava, tratou a afirmar:

- Está bem, eu estou meio suada, vou jogar uma água no corpo, mas te encontro lá, daqui a pouco então.

  Ó Pai*, eu quem estava suando depois de tanto forrozear e a boneca intacta ia se banhar. Era quase que um pecado ela tirar aquele aroma doce do corpo, misturado com a maresia.

  Eu tratei de me trocar e ir para a festa com os parceiros da equipe, cheguei a comentar que talvez ela viria também para nossa reunião privada, mas todos riram caçoando de mim. Um colega mais próximo chegou a me lembrar do contrato, mas naquele ponto eu já era mais ilusão e emoção do que qualquer razão que pudesse existir.

  Sentei-me em um punhado de rochas baixas quando a avistei chegar na surdina com um par de drinks para nós:

- Olá Gael, aceita?

- Obrigada, Julie.

  Ali eu aceitaria tudo que viesse dela, inclusive correr o risco do patrão, naquele momento seu irmão, aparecer e acabar com a nossa folia.

  Insisti em dançar muito forró com ela e me esforcei para ela, ainda meio acanhada, olhar mais pra mim do que pro chão, e com muitas risadas diminui o espaço existente entre nós. Tentei acolhê-la em meu peito e não a assustar com o que ela, paulista, chamava de “rala bucho”.

  Que cena memorável, ver seus longos cabelos voando, com o som do triângulo batendo e se dissipando no quebrar noturno e distante das ondas.

  Passamos a noite toda conversando assuntos banais, até vermos o sol se aproximar e entender que era hora de regressarmos cada um de volta ao seu dormitório e consequentemente a sua realidade, com a solidão de um beijo que nunca aconteceu.

  Fora o tempo de me trocar, comer um belo cuscuz para revigorar e voltar aos trabalhos e naquela manhã estava encarregado de bater um baba* com a molecadinha do hotel.

  Eu a vi passando com seu irmão, que carregava dois aparelhos celulares e parecia estar insultando pessoas do outro lado da linha e minimamente se importando com a doce Julie. Ele a beijou no rosto rapidamente e foi entrando num táxi a caminho da cidade.

  Ela com um maiô coloridinho, deitou-se na espreguiçadeira e ficou me olhando jogar por baixo do guarda-sol e dos seus óculos claros. Aproveitei ao máximo para criar embaixadinhas e fazer pequenos gols nas minis traves, o âmago era ter sua atenção.

  Depois acabei indo trabalhar em outras atividades do hotel e não mais a vi no decorrer do dia, só soube por um colega que o irmão havia partido a mil* e ela ficaria ali no hotel, curtindo férias mais alguns dias do início de fevereiro.

  Com o regresso da noite, a vi passando para o saguão do jantar. Fiquei de tocaia, esperando que ela saísse para queixar*. Aleguei que no dia seguinte, uns conhecidos fariam uma roda de capoeira próximo ao farol da Barra e que ela poderia se divertir bastante na cultura baiana.

  Ainda que acanhada, aceitou o convite de imediato, só contestando que iria só e me encontraria no ponto combinado, como alguém que sentisse medo de ser vista ou descoberta e provavelmente por seu irmão que em hipótese alguma, aceitaria seu contato com um quase proletariado.

  Aquela minha folga e nosso quase encontro, tinha tudo para ser um barril dobrado*, mas o sol exacerbado da manhã já nos mostrara o quanto aquele domingo seria perdurável.

  Corpo suado, envolvido pela música, dança e arte, pude senti-la chegar, ainda de costas jogando, fui envolvido pelo aroma de especiaria que exalava no bater de suas palmas. Com um sorriso radiante, era parecia deslumbrada com a vibe positiva que pairava no ar. Notei pelas suas chinelas e vestimentas simples que sua meta era além de passar despercebida, ter um dia singelo e experimentar dos mínimos detalhes da cultura africana. A população compartilhava com ela dos traços africanos naquele dia, não por opção e sim por imposição do destino, afinal o lazer daquela gente era estar com a sua gente.

  Após apresentá-la aos amigos, nos despedimos de todos e ingressamos no farol da Barra, onde tiramos fotos esplêndidas. Pé quente, vi todos descendo lá do alto e finalmente eu e meu favo de baunilha, estávamos ali sozinhos. Com um par de lábios quentes e um olhar serenando, ela se antecipou e me beijou. Adrenalina com cortisol e batimentos acima de duzentos, pode crer. Minutinhos quase intermináveis interrompidos por uma meia dúzia de turistinhas resmungando baixinho: “mamãe, mamãe, eles estão se beijando”. 

  Ali precisamos descer e voltar para a realidade, que ainda era doce e rimava com sorvete nas pedras baixas onde batia a maré ralinha. Ainda meio escondidos, como transgressores da lei, nos beijamos e abraçamos a tarde toda. Até amarramos pulseirinhas de “Nosso Senhor do Bonfim” motivos por uma vontade imensa de que ambos estivéssemos fazendo o mesmo pedido. Seu celular tocou e logo o concreto foi dominando o abstrato:

- Eu tenho que ir, meu irmão voltou para o hotel, é... são tantas coisas para explicar, se ele me pegar aqui, posso me prejudicar, te prejudicar, você não entenderia como ele é...

  Mãos atadas e pés descalços, a vi correndo afoita para entrar no táxi.

  Peguei um busão e tornei a voltar ao hotel.

  Pude vê-la cabisbaixa e chorando escondida em um cantinho no jardim com uma leve penumbra.

  Tentei chamá-la para conversar, me senti muito impotente por não conseguir acalmá-la e fui interrompido quando correndo, ela gritou:

- Desculpe-me por tudo eu não queria te machucar.

  Ela se foi para seu dormitório e um colega muito aflito vendo de longe a situação me orientou a ir também para o meu dormitório, pois a coisa tinha ficado feia.

  Sem entender, ao entrar no quarto, me deparei com uma discussão horrível, entre a chefia, alguns colegas e o irmão dela que me acusava de ter seduzido Julie.

  Não demorou a horrível frase surgir:

- Gael, por violar o contrato você está despedido.

  Perdido, não pensava no que seria de mim sem salário ou benefícios dali pra frente, não pensava em como ajudaria mainha ou meus irmãos mais novos, pensava mesmo no que aquele monstro fazia com o psicológico e se ele nunca teria verdadeiramente se apaixonado por alguém e no final das contas, como ele havia sido astuto a ponto de saber que havíamos nos beijado.

  Mão na frente, outra atrás, fui embora. Com minha trouxa e me sentindo um trouxa. Não tive a chance de me explicar e o pior, de me despedir de Julie.

  De volta ao meu lar, era hora de correr atrás do prejuízo. No começo tornei a procurá-la em redes sociais e até pedi para um colega se arriscar e buscar por seu telefone no sistema no hotel, mas de modo algum podia encontrá-la. Era como se seu irmão, com toda sua arrogância, tivesse pressionado alguém para apagá-la da face da Terra.

  De amantes, passamos a ser desconhecidos. Mas nem as ondas do mar, seriam capazes de apagar os nossos nomes escritos na areia do meu peito.

  Hora de reagir, passei a dar aula de capoeira pra molecada na praia e a tocar com o povo do Olodum para apreciação dos turistas e foi na pausa dos tambores que ouvi meu celular vibrar no bolso da calça branca.

  Terminado o pequeno show, tratei a ler a mensagem deixada por um advogado que me orientava a ir em determinado fórum da cidade em horário marcado para receber direitos trabalhistas do hotel. Eu não conseguia entender o que estava ocorrendo e passei dias investigando a procedência do contato.

  Ainda sem entender, tive a revelação no dia do julgamento trabalhista de que como havia me envolvido afetivamente e não sexualmente com Julie, ela havia contestado minha demissão, feito um exame de corpo delito que não comprovada troca de fluídos corporais e que eu havia sido indenizado pelo erro do hotel.

  Ganhei uma bolada, que impulsionou minha carreira, mas não ganhei nenhuma mensagem de minha amada, que devia ainda ter medo de enfrentar seu irmão e tudo que conseguiu foi um recado xexelento do advogado que sustentava o argumento de que ela sentia muito por eu ter sido prejudicado, que a justiça seria feita e que se fosse de vontade do destino iríamos nos encontrar. Pagando uma tapioca com carne seca para o cara, e uma porção de bolinhos de aipim, consegui descobrir que o irmão revertia parte dos lucros da empresa em suas ações sociais e como não queria prejudicar os envolvidos, ela tinha que se afastar de mim.

  Aceitando a decisão de minha amada, mas ainda na expectativa de vê-la, me mudei para longe de mainha, vim me embora para São Paulo, aluguei um apartamento e no meu bairro fiz uns contatos interessantes e passei a participar de umas audições para ser ator em alguns espetáculos renomados e de leitura da Broadway.

  Quando dei por mim, lá estava eu, ator de um musical, com uma vida praticamente estável, mas um vazio por não a ter ao meu lado. Lembro-me de sempre entrar no palco, com a expectativa de vê-la sentada na primeira fileira, me aplaudindo e destoando na multidão, mas isso nunca havia acontecido. Pego-me perdido sonhando com ela acordado e com noites de amor em uma jangada*, mas acaba em festas com bailarinas chapadas e semi nuas. Trocaria qualquer par de peitos, por um sorriso dela, por reviver o dia em que ela batia palmas enquanto eu jogava capoeira e por aquele beijo interminável no farol da Barra.

  Quando a temporada do musical estava chegando ao fim, soube que faríamos um baile de máscaras em um evento beneficente, onde parte da grana dos ingressos, seria doada a um projeto social massa que resgatava e tratava animas de rua. Lá ia eu, um nordestino sofredor, ter que lidar com a elite paulistana, mas algo parecia diferente, não é porque aquelas pessoas eram ricas, que eram más, elas podiam ser muito boas sim, afinal estavam ajudando em um projeto.

  Última peça concluída, tornei a vestir meu traje a rigor e a seguir para o salão onde ocorreriam novas doações e um agradável jantar. Após servirem a sobremesa, anunciaram que uma tão amada veterinária subiria ao palco para receber o  cheque como prêmio final arrecadado.

  Eu ali, em pé, mascarado, quase engasguei-me e levemente cuspi borbulhas doces do espumante. Julie ali estava, naquele grande palco e eu sem destaque na multidão.

  Esperei tanto para que ela me prestigiasse e lá estava eu compondo sua plateia com meu “traje a vigor”. Ela logo sorriu marotamente, confirmando com moralidade e robustez que um amor verdadeiro, sempre encontrará um meio e um porquê para acontecer...

Glossário regional:

  • Ó paí: corruptela de "olha para isso";

  • Bater um baba: jogar uma pelada de futebol;

  • Partir a mil: ir depressa;

  • Queixar: convidar para um encontro amoroso;

  • Barril dobrado: algo difícil, tenso ou que provavelmente vai dar errado;

  • Jangada:embarcação de madeira utilizada por pescadores artesanais da Região Nordeste do Brasil.

bottom of page