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​"Espetáculo para dois"

   Por toda a minha infância, sempre tive uma paixão exuberante pela dança. Quando era pequenina via meus pais dançando pela sala de estar enquanto em uma mesinha baixinha como eu, terminava de colocar com gizes de cera, os mais abstratos desenhos. Eles pareciam totalmente apaixonados, a minha mãe rodopiava como se o planeta Terra em translação girasse em torno dos seus pés e o meu pai a envolvia em seus braços como quem estivesse carregando um icônico pedaço reluzente da lua.

  A dança era como petróleo para eles, uma riqueza que era combustão e manutenção da vida, éramos a família mais do que perfeita, até que por alguns trocados a mais e uns anos a menos, ela nos trocou por um bailarino com quase dois metros de sedução e nem buscando no pré-sal eu poderia me recordar das qualidades de minha mãe.

   Dali para frente, o vazio enorme invadiu o nosso lar e meu pai trocou os rodopios por cambaleios embriagados pelas esquinas de toda a cidade.

   No colégio, virei a filha do bêbado com a vagabunda, na igreja a menina que o maléfico logo iria sugar a alma e na família a largada que passava de tia em tia aos finais de semanas, períodos de férias ou datas comemorativas.

   A adolescência poderia ter vindo com um turbilhão de emoções, mas não, pois não havia amigos, nem expectativas, visto que o meu único anseio era fazer dezesseis anos, começar a trabalhar e poder pelo menos ter na minha geladeira os litros de leite para o meu cereal que nos últimos anos meu pai havia trocado por cervejinhas e sacos de amendoim.

   Havia comprado um bom notebook com uma grana extra que minhas tias me davam todo mês e passei a enviar currículos a rodo e a me inscrever em trabalhos temporários para as festividades natalinas, porém tudo que sempre consegui foi lavar chapas e tirar batatinhas do óleo fervente das fritadeiras.

   A tortura diária chamada “Ensino Médio” havia acabado e ingressar em uma boa faculdade era um sonho distante pois mal dava para pagar as contas básicas de casa e ver o meu pai falecer com a piora no seu quadro de cirrose foi só mais uma tormenta em meio a tempestade.

   Fiz alguns cursos profissionalizantes e quando a idade adulta chegou sobrevivia de um bico ali, outro aqui, bicos que eram suficientes para comprar a ração da minha gata e manter minhas plataformas de streaming. A vida pacata se resumia a isso: trabalho para casa, casa para trabalho.

   Muito sozinha que fui desde miúda, tive que aprender a me virar na cozinha, muito instável economicamente que sempre fui também, tive que aprender a reaproveitar alimentos diversos e assim a culinária foi se tornando minha maior paixão. Bancar um curso de gastronomia, era impossível com o dinheiro que tirava servindo gente esnobe nos buffets infantis e meus olhinhos começaram a brilhar quando li um anúncio online de uma empresa de cruzeiros, como os famosos tópicos: “estamos contratando” e “trabalhe conosco”. Currículo anexado e agora era só aguardar o verão chegar ...

   Dezembro foi se aproximando e logo fui escalada. Gata com a vizinha, malas leves e prontas e nenhuma bagagem adicional. Riquinho por riquinho, preferia servir os cruzeiristas mesmo, pois assim pelo menos estaria ganhando em dólar.

   Exaustivas dezesseis horas de trabalho e raras folgas semanais, quinzenais ou mensais. Pessoal da staff muito simples e bacana, um mais traumatizado e vivido do que o outro. Ser gay, hétero, branco, negro, magro, gordo, evangélico ou espírita não era nenhum empecilho ou critério de segregação para nós.

   Éramos os excluídos mais incluídos deste mundo.

  Festinhas rolavam entre os tripulantes e uma pegação alucinante, mas muito focada em apenas juntar grana e sair fora, eu mantive todos os dias o meu rumo, trabalhando nas estações de bebida ou com as bandejas cheias de drinks de um lado para o outro.

   Minha parceira de habitação havia encerrado o contrato de uma hora para outra por ter descoberto uma gravidez e como não haviam encontrado ninguém em cima da hora para encaixar no lugar dela, eu dormia sozinha. Acreditem, isso era quase como ganhar na loteria. A sensação de privacidade e liberdade me encantavam, por mais que não desse para ver a luz do dia, dava para sentir aquele balanço gostoso das ondas sob o navio que remetiam a sensação de estar sendo ninado em um berço gigante.

   Em minhas folgas, que eram raras como já mencionei, às vezes dava a sorte de estarmos ancorados em cidades incríveis que me garantiam fotos e lembranças com minhas amizades recém-formadas. A maior parte da trupe era composta por pessoas homoafetivas, o que me impossibilitava ainda mais de desenvolver qualquer relacionamento. Tinha poucas certezas na vida, mas com uma ficada aqui, outra ali, pude estar segura de que gostava de homens apenas.

   Rafa era  o nome do bailarino e meu  melhor amigue nesta doideira toda, era com elu que eu mais ria e acabava alguns finais de noite dando gargalhadas e por vezes tomando drinks que ganhávamos de passageiros gente fina, e por outras, deitadas na minha cabine assistindo filmes horríveis em idiomas inimagináveis. Era o que tinha, mas o pouco que tinha muito nos agradava. Ele amava fugir de seu amigo, que levava incontáveis mulheres todas as noites para otimizar do big berço de uma outra forma, com movimentos menos sutis.

Conforme fui me destacando em meu posto de trabalho, acabei garantindo posições melhores e remunerações um pouco mais altas e tudo isso só me aproximava do grande sonho de ser chef de cozinha. Eu tinha prazer em conversar com os passageiros, em questionar se o ovo poche estava com a gema ideal, se o xarope da panqueca estava na proporção correta e se haviam gostado da decoração brega que eu fazia com cenouras nas saladas. Fui descobrindo dentro de mim que se a vida havia me dado limões, dava pra colocar açúcar e fazer um suco bom pra cacete.

   O suco teria sido ainda mais doce se eu tivesse tomado ele todo sozinha, ou no máximo dividido com o Rafa, mas tudo estava prestes a mudar quando em uma folga de horas decidi ir assistir um show no teatro do navio com fundo instrumental e uma suposta releitura de peça teatral digna de ser passada nos maiores teatros da capital paulista.

   Estava interessada em compor minha bagagem teatral e achava encantador o luxo daquele lugar e ver as pessoas todas arrumadinhas para as noites temáticas me lembrava algo doce e bem adormecido do tempo que restava da minha pré-infância. Sentei-me no local que havia combinado com Rafa, não estava curtindo muito a reserva dele na primeira fileira e confesso que aquelas luzes de certo modo me incomodavam. Passei algumas mensagens, mas nossa internet de tripulantes era bem restrita e nada enviado por mim dava como entregue por ele.

   Luzes apagadas, ali estava eu, sozinha e no meio da primeira fileira. O diretor de cruzeiros, que era um cara pra lá de engraçado, fazia muitas piadas e mexia com as pessoas da plateia mas eu de fato não conseguia achar nada nem um pouco engraçado e queria mexer era meu par de pernas para bem longe dali. Não entendi o porquê, mas uma sensação péssima de pânico ia me dominando.

   Luzes finalmente apagadas, espetáculo anunciado e ... Oi? Espetáculo anunciado e era musical coisíssima nenhuma! Eis que se inicia um vocal libre e um verdadeiro show de balé. Comecei a hiperventilar e sugar com canudinhos invisíveis em minha boca, sugar todo o ar do planeta Terra.

   Não podia acreditar que estava com medo: do palco e das pessoas. Era inevitável não pensar nos meus pais e me dava arrepios em pensar que a minha mãe poderia cruzar aquele cenário lindo montada em um par de sapatilhas com pontas de gesso a qualquer momento.

   A calmaria só me retornou quando vi Rafa entrando. As pernas magrelas e cumpridas saltavam de um lado para o outro e elu com muita classe lançava as bailarinas para giros e elas concluíam com piruetas. Confesso que tive uma crise de riso repentina ao vê-le fazendo par romântico com uma garota, eu simplesmente não parava de pensar nas histórias dele com os homens casados e os “boys magia”. Logo sua cena foi roubada quando um bailarino muito alto, de cabelos e olhos castanhos, surgiu como principal personagem em um dos atos. Pelas risadinhas marotas e escorregada de mão leve e astuta que ele dava por debaixo das saias das moças, pude ter certeza de que estava me deparando com Armani, o fatal, o piranha, aquele que arrancava Rafa da cabine para surrupiar a noite aos embalos de diferentes ritmos do balé.

   Tivemos um encontro de olhares inevitável e ele notando que eu era a “carne fresca da vez” investiu em intensos sorrisos. Tratei em desviar meu olhar e a aplaudir o espetáculo, disfarçando, sentadinha em um canto próxima a coxia quando as luzes se acendiam mandando todos irem embora pro jantar. Rafa, muito feliz com minha presença, desculpou-se por ter me enganado levemente e logo tudo ficou bem, visto que ele não podia nem imaginar o que eu verdadeiramente sentia em relação ao palco ou a dança. Para ele, eu era apenas uma pessoa dura e sem senso de movimentos, por isso me sentava e observava a todos nas festas.

   Enquanto Rafa se desculpava, lá vinha nada mais nada menos do que Armani. Suado, na camisa coladinha e cheio de mulheres ao redor dele, logo se apresentou:

- Olá, vi sua plaquinha de tripulante mas creio que nunca tenha te visto por aqui. É nova? Sou Armani.

Rafa logo o interrompeu:

- Para de ser louco homem, é a Jasmine, minha best, que me acolhe na cabine dela quando você está com todas essas peruas aí. Vem miga, hoje estamos off, bora jantar e assistir um filme homo/hetero top.

   Sem nem eu abrir a boca, sai de fininho. Pude ver sua indignação ao notar que estava bonita e arrumada. Ele sabia claro quem eu era, mas ali ele só queria deixar claro quem ele era. Eu não me ajeitava muito para as festinhas e não reparava em ninguém, chegava a dormir de pijama na área da piscina quando Rafa pedia minha cabine emprestada, por exemplo. Mas naquele dia meus amigos, eu estava “pra morte”, credo, eu estava era “pra matar um” mesmo. Senti uma vontade esquisita de me arrumar, cabelos estavam passados nas tranças da descida em Salvador e um vestido bem na estica. Eu estava lendo muito sobre grandes chefes de cozinha e mudar minha postura fazia parte do script para o sucesso.

   Rafa viu que por algum motivo que ele desconhecia os meus olhos brilhavam e foi logo me alertando: “nem coloca seu par de olhinhos de jabuticaba neste traste não que ali minha filha é problema no começo, no meio e no fim.

   Eu claramente disfarcei e o flerte do moço começou ainda quando jantávamos no self-service que havíamos apelidado de “bandejão”.     Ele tratou de pegar seu prato e sentar-se na mesma mesa, como nunca havia feito antes.

- Rafa, vou me sentar com vocês. Então Jasmine, é igual a princesa?

   O cara mal me conhecia e já estava deixando rubra, a minha pele negra.

- Se liga Armani, vai pegar suas quengas, vamos evitar escândalos no meio dos passengers vai, vaza!

   Ele riu, mas não se levantou e até o jeito que ele levava as garfadas a boca parecia coisa de ator pornô, daqueles bem fajutos sabe? Que o mocinho finge morrer de amores e quando notamos lá está a introdução ininterrupta com sons de trogloditas. A verdadeira visão from hell!

   Ele me intimava a ponto da minha perna tremer só de olhar nos meus olhos. Certeza que assim como eu o imaginava galã de cinema proibido, ele me vislumbrava como a virgem dos olhos de mel/pretos no meu caso, de um romance de José de Alencar. Mal sabia ele que não tinha nada de Iracema e que sim era Jasmine como uma princesa, o que minha mãe havia dito que eu nascera pra ser antes dela cair nos prazeres mundano e abandonar a mim e ao meu pai.

  Jantar encerrado, voltamos para a cabine, Armani disse que ia tomar um banho e queria assistir conosco o filme “brega hetero/homo e qualquer sexualidade top”. Espantada e ainda assustada pensei que iríamos para a MINHA CABINE. Que tola! Acabamos na cabine deles e enquanto Rafa ligava a mini televisão, ele tratou de tomar banho com a porta semiaberta com uma função oculta caso eu quisesse admirá-lo pelo espelho.

  Confesso que a tentação me dominou muitooo e claro que eu dei uma leve olhada e por obviedade novamente nossos olhares se cruzaram. Não tive nem tempo, nem coragem de ver o que queria, sabe? Mas era melhor assim, não criar nenhum tipo de ilusão em minha mente, afinal como iria sustentar depois essa história toda com o garanhão?

   Tornei a interromper meus pensamentos mundanos e voltei para minha cabine para colocar meu pijama dos “Ursinhos Carinhosos” que deveria ser minimamente brochante e já cortar o mal pela raiz.

   Sonho meu! Mal entrei de novo na cabine lá veio a fatídica cantada:

- Sempre desconfiei que você era uma ursinha carinhosa!

   Rimos brevemente e o Rafa nos interrompeu, já de pijama, pro lixo de filme pra noite. Pensei que Armani iria ficar inquieto com a festa rolando mas que nada! Ele me colocou naquele momento como meta e ele não ia desistir fácil assim.

   Deitada na cama de solteiro com Rafa, via ele tentando desenhar meu corpo por debaixo do pijama quase juvenil, tanto o pijama, quanto a atitude dele. Mal sabia ele que já tinha sim algum envolvimento casual e aleatório com algumas pessoas. A minha necessidade fisiológica era como a de todos mas jamais havia de fato me apaixonado.

   Muito cansada, cai no sono e vi que Rafa cochilava também, quando acordei ele me admirava de sua cama de solteiro e bem próxima, um tanto psicopata ok, mas bem fofo. Parecia que eu conseguia olhar por trás dos olhos dele pela primeira vez e vi alguém carente de afeto.

   Despedi-me em silêncio e vi ele acenando lentamente, eu não queria me iludir, mas algo de diferente havia rolado por ali.

   Claro, que em todo restaurante que eu trabalhava ele me seguia e todo dia que assistíamos filme, acabávamos os três juntos. Essa sequência só foi interrompida quando Rafa começou a namorar um cara incrível e Armani começou a bater sorrateiramente em minha cabine para ter um momento de afeição.

   Ele ficou impressionado que eu tinha uma cabine sozinha e que a mesma tinha varanda. Começou a apostar em samba canções transparentes e na cuequinha boxer colada por baixo para marcar o tamanho do monumento.

  Era quase uma escultura, deixa para lá. Não, pera! Quando dei por mim, eu era quem estava montada naquela obra de arte, construindo o artesanato todo.

    Beijos de escorrer a saliva e transas de pingar tanto o suor a ponto de trocar o lado da cama.

   Eu estava completamente enlouquecida por ele! Queria viver em cima daquela cama, dentro daquele box ou escondida nos corredores de stand by para as malas.

   Rolava uns episódios de nos escondermos até atrás da coxia e tudo era feito com tanto amor e carinho, que o sexo passava uma naturalidade, precisando nos vigiarmos o tempo todo para termos certeza de que estávamos sozinhos.

   Rafa mal se intrometia, dizia que ninguém apagaria um fogo daqueles não, que ele que não seria doido de me aconselhar nada ao contrário do que me jogar naquela paixão.

   Pois é, todo fogo queima mesmo. E passamos rapidamente de um poema de Camões para o lado dark do Trovadorismo.

Notava que toda vez que tinha algum encontro dos bailarinos, ele e o próprio Rafa me excluíam, e por tempos achei normal eles terem um momento deles, afinal isso faz bem para todos em uma relação de amizade ou em um relacionamento amoroso. Mas em determinado momento, comecei a perceber que era mais que excluir, era proibir, era como se algo errado ocorresse por trás dos meus olhos.

   Claro que com a fama de Armani, só podia ser uma traição que encerraria meu conto moderno de Aladim e mulher que sou e me reconheço, preparei uma aracupa para o “Cisne branco”, um flagrante mesmo.

   Fiz amizade com umas meninas muito bacanas e adentrei a festa privativa. Vi que melhor amigue e uma mulher conversavam sem parar e só lembro de ouvir o Rafa dizendo:  “mãe ela não desconfia de nada relaxa, ela pensa que eu sou um menino do subúrbio e nem desconfia que a ex colega de cabine foi embora por causa do Armani, ele tem sido o namorado perfeito. O plano está correndo conforme o planejado, logo ela estará dançando como a senhora sonha e vocês irão se reaproximar”.

  Só consegui ir me aproximando ainda mais e é impressionante como a visão fica turva quando descobrimos estarmos sendo enganados.

   Quando a bela e alta negra se virou, o impacto não foi outro. Nenhuma filha jamais esquece a voz, nem os olhos de sua mãe.

   Sim Brasil, a minha mãe era a sucedida diretora de espetáculos de dança de cruzeiros, Rafa era meu irmão mais novo por quem ela partiu para poder criar e claro que Armani havia engravidado a minha ex-colega de quarto a quem minha mãe desligou o contrato compulsoriamente e eu só descobri tudo isso quando estava perdidamente apaixonada por ele.

   Nem toda história de amor acaba feliz, não é mesmo?

  Engoli meu choro, minha raiva, me escondi na cabine de uma das meninas muito bacanas que conheci e logo expliquei na manhã seguinte a minha situação ao diretor de cruzeiros que compreendeu e autorizou o encerramento imediato de meu contrato no próximo retorno ao porto originário da viagem.

   Enganada por todos, com muito dinheiro guardado, fui capaz de estudar nas melhores escolas e universidades especializadas e como um grande olheiro havia estado a bordo antes do término da temporada, fui convidada a trabalhar em um renomado restaurante.

 Vivia pela cozinha e não mais cozinhava para viver e com muita coragem abri meu negócio próprio, um restaurante belíssimo, chiquérrimo, com mesas especiais para casais e cenários perfeitos para a paixão, além de espetáculos diários regados com balé e dança de salão.

   Naquela fase de sucesso da vida, tampouco fazia sentido ter raiva do amor ou da dança e a minha maior superação foi chamar o meu restaurante de: “espetáculo para dois”.

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