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​"Mochilão de pés descalços"

   Se você nunca amou duas pessoas ao mesmo tempo, não pode imaginar o tamanho da sorte que tem.

   Costumava ouvir de amigas mais próximas que estava reclamando de barriga cheia, visto que a maior parte das pessoas passa uma vida toda sem conhecer o verdadeiro amor.

   Mas a grande verdade é que eu me sentia com um azar enorme por conhecer dois homens incríveis em sentidos diferentes e por não conseguir decidir qual deles mais me cativava.

   Como uma menina, em plena maturidade, cheguei a pegar uma folha de sulfite em branco e dividi-la ao meio e com uma caneta azul escrever na frente as qualidades de cada um e no verso os defeitos.

   Um completava o outro de uma forma tão incrível, que cheguei a cogitar em minha mente que eles quem eram alma-gêmeas.

   Estou doida para contar sobre eles e acreditem, eu passaria horas descrevendo cada beijo ou palavra que saiam daquelas bocas, mas primeiro preciso situá-los meus queridos de como tudo começou.

  Eu havia vindo de um único namoro e relacionamento desde os tempos da adolescência e para mim até o início da vida adulta estar com alguém era algo que trazia apenas conforto e possível estabilidade.

  Mas não era nada disso, o que de fato eu vivia era uma dependência emocional gigante e “comodismo” é o melhor termo para descrever aquele vínculo afetivo que tínhamos.

  Aquilo era o que chamo de morno e vocês já viram o morno servir para algo neste mundo? Água morna não faz chá, tempo morno não da maré boa para surfar e eu realmente precisava ver borbulhas subirem do fundo da minha alma perante o ferver deste mundão.

  Frustrada e traída pelo ex que queria provar de tudo e mais um pouco, eu decidi fazer um pacto comigo mesma: a partir daquele momento eu ia ter um relacionamento comigo mesma e praticar o tão famoso “amor-próprio”.

  E assim eu o fiz e foi muito importante conhecer quem eu era, porque naquela altura eu era um perfeito espelho perante a imagem de um alguém com quem não mais queria estar. Sim, eu sei que devemos ceder em um relacionamento, mas é uma merda você ceder o tempo todo e não ter clareza nem mais do que gosta de comer ou se vermelho realmente é sua cor preferida.

  Sozinha por um tempo, curti bastante a vida. Vivi experiências gastronômicas agradáveis, intercalei entre sóbria e oposto por muitas noites e viajei para lugares incríveis. Fiquei com algumas pessoas, mas nada marcante ou além de uma troca fluídos perante necessidades fisiológicas.

Logo chegaram meus trinta anos, dando boas-vindas para uma vida monótona e cheia de responsabilidades. Era tempo para nada além de: trabalho, trabalho e muito trabalho.

Cansada da vida presa nas paredes de um escritório e com uma estafa mental gigante, acabei indo parar na psicanálise e claro que a primeira recomendação foi o que se esperava: reservar um tempo para mim mesma e ter um hobby.

  Depois de lutar para ter alguma ideia do que deveria fazer, acabei me enfiando em uma loja de fotografias e saindo com uma câmera profissional.

   Depois de assistir muitos tutoriais comecei a ir para as ruas e arriscar alguns retratos.

Tudo estava ainda monótono, porém com um grau de leveza, devido aos novos hobbies.

Tudo saindo conforme o planejado, até ser transferida para a filial da empresa que ficava no Rio de Janeiro.

   Muito estressada por não lidar bem com mudanças, ainda mais repentinas, obviamente não gostei, mas minhas amigas começaram a me animar, dizendo que eu iria amar morar em uma região litorânea e que iria me encantar com os cariocas.

   E lá fui eu, em busca desse encanto todo e muito puta da vida, claro.

   A filial, meu apartamento e a Praia do Arpoador formavam a trindade perfeita.

   Meu primeiro dia na nova filial foi marcado pelas minhas boas-vindas na empresa, regadas por tacinhas de Mimosa e um total de um milhão de conversas chatas, mas amigáveis sobre clientes e afins. O mundo corporativo era um tédio, não importa para onde eu ia, tudo parecia igual.

Parecia, até ele entrar por aquela sala de vidro de reuniões. Era um prazer conhecer finalmente o vice-presidente da empresa, mas prazer era sobre tudo que ele me daria depois.

   Léo é o seu nome, muito cordial e educado, apertou a minha mão com força, puxou uma cadeira e me convidou a sentar na sala de reuniões. Nos meus olhos mirava sem parar e me deu a notícia incrível que após conversarem na equipe, optaram por me promover a gerente de marketing. Eu queria dizer que o que me deixava mais feliz era minha nova posição empresarial, mas eu me perdi naquele sorriso.

   Um metro e noventa de pura sedução. Branquelo, cabelos loiros lisos e impecáveis com o gel que não os deixava serem bagunçados. Mãos grandes e macias e um cheiro maravilhoso do seu perfume amadeirado no ar. O terno justinho deixava perceptível aquela bundinha saliente e uns coxões que daria banquete de Natal para os próximos dez anos.

   Ele falava baixo e sorria com suas covinhas, com toda delicadeza deste mundo. Aquele homem era a perfeição.

   Educado, gentil, um verdadeiro gentleman!

   Em dias, fomos nos aproximando. Eram almoços de negócios e trabalhos até altas horas da noite.

   Comecei a investir em saias sociais mais curtas e camisas transparentes, mas só consegui arrancar um elogio de sua boca após um jantar com clientes importantes em que usei um longo coladinho no corpo. “Divina” ele disse. Ele era um cara clássico, aqueles que te comem com os olhos, mas jamais sairá de sua boca a palavra: gostosa.

   Além de clássico, equilíbrio era o seu sobrenome. O Deus grego nunca elevava o tom de voz, não se desequilibrava.

   Todos os dias antes de iniciarmos os trabalhos, me perguntava sobre minha vida pessoal: família, amigos e animais de estimação... Ele deixava claro que o meu bem-estar era sua prioridade.

   Eu estava apaixonada por ele e tinha certeza de que algo ele também sentia, mas por ser meu superior, talvez achasse nosso relacionamento inapropriado e evitava deixar as coisas rolarem.

   Um dia, estávamos a sós em sua sala, ele baixou todas as cortinas e disse que tinha algo confidencial a me contar. Muito sério e extremamente sexy, abaixou os óculos e relatou que nas próximas duas semanas estaria fora do país pela empresa e que em seu retorno precisaria de um jantar a dois comigo. Cheguei a pensar que era algo profissional, mas logo fui interrompida por seu sorriso maroto que disse baixinho: “capriche no vestido longo e no que você for usar por baixo”.

Coração disparou e cheguei a rubrar (tenho certeza absoluta), mas logo ele abriu as persianas e voltou para o personagem de vice-presidente.

   Nas duas próximas semanas sem o Léo, tornei a fazer longas caminhadas pela praia e arriscar algumas fotografias. Idealizava todos os dias como seria aquele encontro perfeito.

Perdida no meu amor, talvez platônico, porém evidentemente correspondido, arrisquei a escalada nas pedras da Praia do Arpoador e tratei de tirar inúmeras fotos de uns rapazes surfando. Um deles me chamou muita atenção pela forma com que fazia acrobacias em cima da prancha e por aquele sorriso perfeito branco naquela pele negra que o sol parecia acariciar. Ele chamava pela sua trupe com aquele sotaque puxado e talvez ali eu tenha compreendido a magia de um carioca, como tanto torciam as minhas amigas de São Paulo.

   Vergonha senti quando ele percebeu que estava gostando do seu show e começou a acenar para as fotos. Dei umas risadinhas e sentada permaneci, fingindo demência.

O sol começou a se pôr e lá veio ele, molhado e esculpido por Deus com a prancha debaixo do braço e com a maior cara deslavada deste mundo, me pediu para abrir um pouco do zíper do seu macacão e logo se apresentou como Júlio.

   Em nosso primeiro contato parecia que nos conhecíamos há infinitos anos. Uma química enorme começou a fluir e nossos corpos falavam como se quisessem se encaixar ainda naquela noite.

Ele era um perfeito “moleque maloqueiro que só quer brincar”, mas a leveza dele fez com que não me preocupasse com nada sobre o futuro, desde que inexplicavelmente de algum modo, ele estivesse ao meu lado.

   Na ausência de Léo, mesmo liderando uma grande equipe na empresa, passei a ir diariamente ver os finais de tarde na praia do Arpoador e Júlio fazia questão de estar comigo. Tomávamos sorvete juntos, pouco conversávamos sobre planos para o futuro ou afins. Ali realmente existia um poder no agora e foram em nossas caminhadas, nas tentativas frustradas dele me colocar em cima de uma prancha que comecei a me apaixonar perdidamente.

   Ele era desequilíbrio e intensidade. Viver era sua única urgência. Não existiam filtros, nem regras e quando dei por mim já estávamos nos mais diversos luais e queimando becks até não sentir o peso das pernas.

   Eu queria beijá-lo e acariciá-lo todos os dias que estávamos juntos, mas para isso eu teria que pegar uma fila enorme e esperar sentadinha entre loiras, morenas e ruivas.

Com Júlio estava tudo tão excepcional que nem dei por mim que Léo havia postergado sua viagem ao exterior, porém em breve retornaria.

   Foi só ele pisar naquela empresa para todos os meus sentimentos voltarem à tona.

   Quando estava na empresa com Léo, eu era cem por cento apaixonada pelo Léo, porém quando passava meu tempo livre na orla com o Júlio, eu era cem por cento apaixonada pelo Júlio.

   Dois homens incríveis e totalmente diferentes que despertavam em mim um misto de afeto e desejo em proporções exacerbadas.

   Não demorou tudo fluir com ambos e para o meu real desespero a minha primeira noite com o Léo foi na mesma tarde em que havia transado com Júlio.

   Era um sábado de “Rio verão quarenta graus” e logo cedo fui ver Júlio surfar junto com seus amigos e logo veio um sol maravilhoso e após ele muito me incentivar, fiz um topless na areia da praia. Muito foi para despertar o seu desejo claro e enciumá-lo com uns outros turistas indiscretos que passavam olhando. Com ele eu era livre, leve e solta. O horário do almoço se aproximava, fomos comer peixe em um restaurante do amigo dele a beira mar. A galera começou a ir embora e finalmente estávamos sozinhos. Muito sedutor e espontâneo disse que havia planejado algo inusitado para mim e quando menos esperava, lá estamos nós em um voo de asa delta e ele me surpreendeu ao contar que era instrutor de “Hand Gilding”. Foi maravilhoso ver o “Pão de Açúcar” e o “Cristo Redentor”, porém a real maravilha naquele momento era sentir seu perfume cítrico misturado com a maresia conforme o vento batia em nós. Quando fizemos o pouso, ali veio a maior surpresa: um beijo longo, molhado e demorado. Degustá-lo foi como provar sorvete de pistache pela primeira vez.

Ele me virou, prendeu os meus cabelos e me deu a mão para caminharmos juntos na areia e disse que só precisava passar em um local antes para pegarmos uma barraca e disfrutarmos do pôr do sol com maior privacidade. Seguimos para Praia da Reserva, onde diversos casais estavam montando suas barracas, eu sentia meu corpo formigando da cabeça aos pés e só a forma com que ele me olhava, confirmando o que ia acontecer, me deixava completely wet.

   Barraca montada, o sol baixando, sentados ele me abraçou e jogou uma manta fina em minhas costas para cortar a ventania. A fogueira queimava na faixa de areia próxima, ele acendeu um e começou a afagar meus cabelos. Contamos juntos os minutos para o danado do cigarrinho acabar e foi no último trago que ele tirou meu vestidinho passando pela minha cabeça e sorrateiramente virou-me de bruços e tirando meu biquini cortininha, passeou com sua língua sobre meu corpo todo até penetrar-me com força. O danado era bom e sabia exatamente o que fazia e após chegarmos no ápice me deixou de lado, voltou para o seu mundinho e no caminho de volta para a minha casa um silêncio mortal reinou.

   Cheguei em casa, tomei um banho e logo Léo foi me ligando para irmos jantar. Como estava um pouco decepcionada com Júlio, aceitei o convite para sairmos.

   Ele me levou para andar de helicóptero e fomos para um chalezinho no interior de São Paulo, com direito a um fondue delicioso regado por muito vinho. A lareira estalava ao fundo e suavemente ele foi abrindo os botões do meu vestido um a um, até deitar-me devagar no tapete da sala cheio de pétalas de rosas. Muito me beijou, acariciou e vagarosamente puxava meus cabelos. Foi soprando pouco a pouco as velas ao redor de nós para eu me sentir mais confortável. Quando notou que eu estava usando uma lingerie de renda vermelha, sussurrou em meu ouvido que seria um absurdo tirar aquela calcinha e com toda a delicadeza deste mundo, colocou-a para o lado enquanto em mim inseria sua língua quente e seus lábios carnudos. Encantado, sem tirar os seus olhos dos meus, prosseguiu e concluiu o ato todinho por cima daquelas panties. Paciente, só parou até juntos chegarmos ao ápice.

   Dali em diante eu não conseguia mais focar em nenhum dos dois, inclusive nem em meu trabalho, ou em meu próprio tempo ócio.

   É muito baixo dizer que eu queria um para me c0m&r com força e outro para me amar a luz de velas?

   Eles chegaram a se cruzar um dia ou outro pelo bairro e isso só me deixava mais agoniada pois apesar de não estar em um relacionamento sério com nenhum dos dois, tinha o sentimento de estar sempre traindo ambos.

   Cheguei a ficar tão paranóica que pensei vê-los trocando ideias juntos.

   Indecisa sem saber o que fazer ou quem exatamente deveria ficar e não querendo mais mexer com os sentimentos de ninguém ou afetar a nós todos, pedi férias do trabalho e comprei uma passagem só de ida para fazer um mochilão na Europa.

   Com a cabeça a mil demorei dias para relaxar e quando o fiz, fui convidada para um desfile de moda. Convite foi deixado no quarto do hotel que eu estava.

   Sem nada muito importante para fazer, decidi ir. Como estava muito calor e querendo sentir ainda mais a liberdade, descalça fiquei e carreguei meus tênis nas mãos.

   Surpreendida fiquei quando ao entrar no desfile e acomodar-me a primeira pessoa que entrou por aquela passarela foi Júlio, minhas mãos suavam de nervosismo e no lugar vazio ao meu lado sentou-se Léo com uma camisa da empresa que estava patrocinando o evento. Eu tremia e sentia minha boca secar denunciando meu desespero.

   Entre aplausos e pausas, Léo deu um grande sorriso e sussurrou em meu ouvido: “você nunca precisou escolher um, quando pode ter os dois ao mesmo tempo”.

   Pálida e aliviada fomos encontrar ao Júlio e ali mesmo no camarim, começou a nossa história de poli amor...

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