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​"Doutor Mecânico"

  A chuva estava caindo forte, eu dirigia rapidamente com pressa para chegar em casa e com os nervos à flor da pele, após mais um banal dia de trabalho. Estava preenchida pelas frustrações do dia a dia, dominada por um desânimo e a pressa de estar em casa o quanto antes. O vestido todo amassado e com uma pequena mancha de molho do macarrão que engoli correndo na minha sala entre uma reunião e outra. Na boca, um gosto amargo de vida, que batom nenhum nesse mundo poderia disfarçar.

  Estava cansada de jogar o jogo de não ser eu mesma, de fingir ser a executiva perfeita, sonhava em colocar um pijama aveludado, meias coloridas, me cobrir até os ouvidos e assistir qualquer coisa fútil até pegar no sono.

Ainda entre buzinas e faróis altos, ouvi um pequeno barulho como se tivesse passado por cima de algo. Não era gato, cachorro, ou nenhum humano e partindo da teoria que era apenas um objeto provavelmente perfurando o pneu, eu decidi seguir em frente.

  O plano era perfeito, eu chegaria intacta na garagem de casa e acionaria o seguro para fazer a troca do que quer que tenha rompido, mas não foi bem isso que aconteceu.

  Ouvi um estrondo um pouco mais forte e o carro começou a não mais responder e foi parando.

  Para mim, naquele momento, era apenas um saco em plena chuva ter que parar para olhar o pneu e chamar a assegurada, pois aquilo era um adeus ao meu pacato plano de viver no ócio.

  Pisca ligado e já era hora de atuar novamente, hora de ligar para a seguradora e fingir ser uma princesa assustada para virem o quanto antes. A estratégia podia ter sido perfeita até que me deparei com o perfeito cenário de filme de horror dos anos noventa ... telefone sem bateria e mais um pouco de escuridão. Perdida, intercalando entre a escuridão dentro de mim e a escuridão da rua, tive a genial ideia de ligar o carro e carregar meu aparelho celular no automóvel, eis então que veio a decepção: era uma pane elétrica. Nada ligava: nem carro, nem celular. Só eu ligava mesmo, afinal estava esse tempo todo empenhada em atuar no papel da sociedade de mulher bem-sucedida e de nada me adiantava o carro de luxo ou celular de última geração. Além de escuro, tudo formava um conjunto de vazio: vizinhança e alma.

  Montada no salto quinze, resolvi descer do carro, atravessei a rua em busca de um “orelhão” ou um comércio próximo que pudesse me emprestar um telefone para realizar a ligação.

  Notei apenas um bar meio movimentado, com muitos rapazes e jovens homens assistindo um jogo de futebol e por raiva, desespero, medo e vazio, dei meia volta e me reaproximei do veículo.

  Irritada, decidi que ia resolver aquele problema, tirei os saltos e me coloquei na frustrada tentativa de trocar o pneu ou tentar bancar a engenheira elétrica e reconectar qualquer cabo em qualquer canto.

  Vestido amarrado com um laço na barra, pés descalços no asfalto, cabeça baixa e cabelos pingando. Nessa hora a ogra assumiu o papel, então já não me adiantava guarda-chuva, ou nenhum outro artefato. Senti uma sombra se aproximar.

  Claro que achei que era um assalto em primeira instância, existem infinitas possibilidades de ser roubada todos os dias em nossa existência terrestre e uma quase nula de em toda a eternidade se aproximar.

Logo me dei conta que bandido nenhum no mundo teria tão agradável perfume. Podem até me julgar preconceituosa, mas que ladrão teria um cheiro amadeirado como aquele? Ele tornou a me estender a mão como quem queria me tirar do chão:

- Posso ajudá-la moça? Ou você vai continuar essa luta com o carro?

  Primeiro me perdi nos seus olhos amendoados, uma pele aveludada, que nenhum “Skincare” no mundo me daria e foi impossível não notar como era alto e chamava a atenção. Ele usava uma roupa toda branca que conforme a chuva ia caindo, colava em seu corpo.

  Muito sem graça, ele percebeu que o encarava, num misto de sentimentos:

- Moça, está chovendo muito, vamos ali no coberto do toldo do bar que eu te ajudo. Não vou te roubar não, só vim dar uma força mecânica mesmo, se quiser, claro.

  Caímos na risada para quebrar o gelo e aceitei a ajuda da mão estendida, para me levantar. Pela primeira vez, não pensei em me recompor e jogar dados na vida com o tabuleiro da perfeição.

  Atravessamos a rua e eu tornei a me apresentar:

- Sou Lucy, desculpe estou um pouco desnorteada.

- Prazer Lucy , sou o John. Você não conseguiu chamar o seguro?

- É... na verdade meu celular descarregou e...

- Eu imaginei, te vi entrando no bar, mas como virou e foi embora, bem... até pensei em te ajudar, mas com medo de te assustar (ele falava sem parar, um pouco tímido, talvez com umas cervejinhas a mais na mente, eu não sabia ao certo definir), enfim, acho que de qualquer modo acabei te assustando, não foi?

- Está tudo bem, só queria um cabo pra tentar carregar meu celular.

- Claro, eu te arrumo já.

  Ele logo fez contato com alguns funcionários do bar, enquanto os “machos alfas” celebravam os dribles e gols do jogo passando nos telões do bar.

  Eu morrendo de vergonha, pés sujos, roupa encharcada e pingando num cantinho da entrada do pub, querendo ser a mulher invisível.

  Meu celular não carregava por nada neste mundo, pois aparecia uma mensagem de impossibilidade de carregamento devido a placa estar úmida naquele momento.

Ele notando minha impaciência, pôs se a falar:

- Eu ... (ele gaguejava) tenho uma oficina mecânica, posso te ajudar se quiser.

  Parecia uma mentira, ele não conseguia disfarçar que algo estava errado.

  Eu achava que ele era açougueiro, na verdade, porque suas roupas pareciam sujas de carne e parecia que ele estava “dando esse migué” de ser mecânico para ficar mais perto de mim, claro.

  Como nada estava dando certo, e na minha mente, ele já teria até me sequestrado e jogado numa viela qualquer se quisesse, eu resolvi aceitar a ajuda.

  Molhados, caminhamos até o carro. Ele pôs-se a trocar o pneu e deu a desculpa que a seguradora não aceitaria uma ligação feita de outro celular e que era melhor ele resolver a situação.

  Eu fingia acreditar nas histórias que ele contava e os seus amigos, todos açougueiros dentro do bar, só confirmavam as minhas suspeitas, quando gritavam e caçoavam de sua cara:

- Aí sim, hein John? Trocando pneu agora!

  Ele dono da uma palidez só dele, ficava com as bochechas avermelhadas, extremamente envergonhado. Decidiu então, puxar assunto, enquanto eu inutilmente segurava o guarda-chuva sobre sua cabeça e corpo agachado no chão:

- Lucy, e aí esse carro, está gostando?

- Sim, muito bom.

  Que loucura, eu parecia ter esquecido a Língua Portuguesa todinha, balbuciava palavras e estava envolvidíssima com o assunto vazio, quer dizer, com o contorno rosado dos seus lábios e seu nariz fino e arrebitado. Uma delicadeza, para um homem de tamanho porte. Pude notar que ele tinha o trapézio bem estruturado e zero marcas de aliança nas mãos. Alguns fios de cabelos grisalhos perdidos, que sinalizam discretamente que ele era mais velho.

Foi a chegada de um rapaz, que fez eu perceber com uma fala que além de mais velho, era mais vivido do que eu:

- Pai (ele gritava embaixo do toldo do bar do outro lado da rua), aqui estão as toalhas que me pediu.

  John correu a pegar as toalhas:

- Lucy, eu vou forrar seu banco, anda, entre – ele gritava na chuva, me dando a outra toalha para que eu pudesse me enxugar também.

Uau! Que cavalheirismo, não é mesmo?

  Nunca tinha visto um açougueiro tratar tão bem uma carne, como aquele estava fazendo com a minha.

  Pneu resolvido, via seu filho assistindo toda a situação do outro lado da rua, rindo e trocando piadinha com os outros colegas do bar.

  Ele tornou a abrir a porta do carro, enfiou a cabeça em direção ao painel e algo apertou ou reconectou.

  Um lado bruto, não polido e repleto de adrenalina, dentro de mim floresceu e quando senti uma gota de seu cabelo negro e liso escorrer em meu colo, o puxei contra mim, dando aquele beijo cinematográfico, com língua quente entrelaçada e respiração ofegante de adrenalina pairando no ar. Ali era suor, chuva e desejo no ar.

  Muito sem graça e me recompondo, voltei ao papel de princesinha, parei de beijá-lo sem permitir que sequer deslizasse a mão sobre mim.

  Interrompendo o ápice do dia, da noite e talvez da vida, eu simplesmente disse:

- Obrigada.

  Muito sem graça e totalmente corado, ele só respondeu:

- Espera aí e entrou correndo no bar.

  Era possível ouvir mesmo com os vidros fechados, seus amigos no bar ovacionando o suposto ocorrido.

Muito sem graça entrou na porta do passageiro com dois guardanapos e um discurso incrível:

- Lucy, vou colocar aqui meu telefone nesse guardanapo e se você confiar em mim, coloca o seu também pra gente continuar esse beijo um dia desses qualquer.

  Eu mal podia olhar em seus olhos pois seria na minha imagem de mulher politicamente correta, um erro trocar minha vida independente (e solitária) por uma noite com ele, como eu o quis fazer naquele momento.

  Tratei de colocar meu telefone no guardanapo e ao olhá-lo discretamente enquanto ele escrevia o seu em outro, afinal ambos ainda sem celulares para guardar os números e fomos obrigados a recorrer ao método antigo da paquera.

  Eu só pensava que ele poderia ser um lunático, um golpista, charmoso, pronto pro pecado, mas ainda um doido qualquer.

  Ele se despediu, liguei meu carro e parti.

  Comecei a seguir meu caminho e não demorou dois quarteirões para me arrepender por ter anotado meu número errado. Por não ter seguido instintos, por ter enganado um cara que só tinha me ajudado naquela noite.

  Talvez ele tenha se sentido envergonhado, ou intimidado por eu ter um carro nobre, ou talvez tenha só inventado ter uma oficina para eu não achar que ele ia me assaltar, mas por que não emprestar o próprio celular?

  Quase no meio de uma crise de ansiedade, abri os vidros para respirar melhor. Chuva passando, celular voltou a funcionar e ao parar no farol tive a brilhante ideia de anotar seu número em meu aparelho. Para minha infelicidade e desespero, um carro veio em alta velocidade fazendo guardanapo voar para fora do carro, antes que eu pudesse anotar o número de John.

  Enraivecida, xinguei o motorista, tornei até a irracionalmente segui-lo sem notar que deveria ter ido atrás mesmo era do guardanapo.

  Quando cai em mim, tornei a contar a mim mesma uma história chinfrim que “não era para ser”, “ele era só mais um psicopata”,  “mentiroso e interesseiro, viu que eu tinha um carro bom”.

  Acontece que os dias foram passando, eu acordava, mecanicamente vivia, trabalho para casa, casa para o trabalho e a única lembrança que me fazia sorrir quando estava sozinha, era a recordação daquele beijo doce e molhado, da noite insana, do guardanapo voando...

  Tive por fim, a brilhante ideia, de todos os dias, após o trabalho, passar em frente ao bar e tentar avistá-lo, mas nem sinal dele e dos demais amigos, nem mesmo nos dias dos jogos dos grandes times nacionais.

“Workaholic” que havia me tornado, tomando cafeína sem parar para entregar projetos, precisava de uma “válvula de escape” para fugir do mundo hostil e fantasiava horas que ele ia chegar em casa entregando algo, ou iríamos nos esbarrar na rua, mas sem ver esse dia chegar tive a insana ideia de começar a comprar carne, quase que diariamente, em açougues diferentes na expectativa de encontrá-lo.

  Congelador lotado, carne estragando, presenteando pessoas com bandeijinhas pelo escritório, fingindo apoiar pequenos negócios e nunca contando de fato a ninguém o que havia ocorrido.

  Um pouco magoada comigo mesma, por não ter dado meu real número, por ter seguido o carro naquela noite, por não ter voltado no bar e pedido novamente o número. Caí no choro, com uma carga emocional enorme e dormi abraçada nas toalhas que me emprestou naquele dia, na expectativa de sentir o seu perfume amadeirado, mesmo me deparando apenas com meu amaciante. Eu agarrava o algodão, como quem agarrava a ele, até que adormeci.

  Sonhei a noite toda com nosso reencontro, com coisas ridículas, como ele vindo de avental branco e um facão cortar carnes em minha frente, aquelas coisas doidas que a gente não imagina, mistura tudo, fica suando a noite, delirando nas próprias loucuras e virando de um lado para o outro.

  Decidida, tomei um banho, lavei e sequei cabelos e toalhas, decidi que iria tomar menos cafeína e fazer uma caminhada para trocar cafeína por uma vida saudável e que se fosse para nos vermos novamente, a vida iria encaminhar.

  Deixei as toalhas no banco de passageiro, ligeiramente alimentando ocultamente uma esperança de revê-lo, mas decidi tocar minha vida.

  Fazia um dia lindo, um sol escaldante, comecei a caminhar, a correr e a passar muito mal, como quem precisasse vomitar, colocar algo para fora.

  Fui em direção ao carro, já cambaleando, com grande mal-estar e regurgitando sem parar. Alcancei as toalhas para me limpar e só me recordo de desmaiar e ser socorrida por pessoas no parque que estava e o som da sirene de uma ambulância chegando.

  Quando dei por mim e comecei a acordar, notei que estava na cama de um hospital, um pouco impactada com a situação e sem saber o que estava fazendo, olhei para o lado e vi o bilhete:

 

“Querida Lucy,

Primeiramente lamento por ter mentido ser mecânico, obviamente você notou por minhas roupas sujas de sangue que não era bem essa minha profissão.
Lamento também por não ter emprestado meu celular naquele dia, estava sobrecarregado e queria evitar que o pessoal do hospital entrasse em contato.

Esperei por ti em frente ao bar e ficava olhando na sacada de minha casa, que é ao lado, se você passaria com seu carro, mas como troquei meus plantões para as noites, creio que tenhamos nos desencontrado.

Fique tranquila: eu te perdoo por ter me dado o número errado e espero que em troca do meu perdão reduza essa cafeína que te fez passar tão mal.

Ah, e se puder te pedir mais algo... me deixa anotar seu telefone que consta em seu prontuário?

Fique tranquila, eu não vou sequestrá-la, apenas levá-la para jantar e o que mais permitir (risos)”.

Com carinho,

Dr. John Carter.

OBS: passo em breve para vê-la.

 

  Eu mal terminara de ler o bilhete, quando ele entrou pelo quarto, o John, o “doutor mecânico” e no último lugar do mundo onde esperaria encontrá-lo.

  Conhecer John e reencontrá-lo e viver com ele infinitas e intensas alegrias, só confirmou o antigo clichê: a vida é feita de um total de zero acasos...

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